domingo, 27 de setembro de 2009

MULHER TRAIDA


Ninguém gosta de ser enganado, mas, dependendo do sexo da vítima, uma traição causa estragos diferentes. Hoje, tratarei do abalo que provoca na mulher. A dor que ela sente quando descobre que vem sendo traída pode assumir tal proporção que opera um profundo rasgo na alma. Para cicatrizar, essa ferida requer cuidados. É preciso respeitar a fragilidade do momento, enquanto se reconstitui o sentimento de inteireza, que fica profundamente abalado.

Num plano saudável e maduro, a mulher manifesta seu protesto junto ao homem e dialoga com ele. Ela não se precipita, dimensiona o significado e a gravidade da situação e decide sobre continuar ou não na relação. Dá ao homem a noção exata do que ele lhe causou, mas não se deixa avassalar, isto é, consegue ser continente para com sua própria dor e preserva a objetividade para lidar com o assunto com o necessário distanciamento. Quando se julga incapaz de filtrar a experiência com seus próprios recursos, busca ajuda profissional para processar a vivência e encontrar a conduta sensata para enfrentar os fatos. Uma mulher assim, equilibrada, está apoiada em um sólido autoconhecimento, ou reconhece a necessidade de ir ao encontro dessa modalidade de sustento para só então escolher o rumo que tomarão as suas ações.

Mas minha observação clínica tem revelado que, na maior parte das vezes, a mulher traída é devastada por sua dor, reduz-se à ferida que sofreu, como se nenhum outro aspecto de sua existência ficasse íntegro o suficiente para socorrê-la e ajudá-la a dar conta da situação. Ela não tem uma dor. A dor é que a tem.

Humilhada e desqualificada, pode tornarse uma expressão da miséria humana e, em paralelo, sem que o saiba, eleva o parceiro à posição de um juiz supremo, capaz de decidir sobre seu valor. Trocando em miúdos, pensa: "Se meu marido se interessa por outra, isso prova que não valho nada". A dor a impede de olhar o marido com crítica: não considera que pode haver algo de errado com ele - e não com ela. Pressupõe que, além de juiz, é confiável, sábio, e lhe confere o status de uma divindade capaz de decidir sobre sua absolvição ou condenação como mulher. Se ele a pretere, ela é condenada; se reafirma sua preferência por ela, é absolvida. Tudo se dá como se o interesse do homem tivesse o poder de conferir não só valor, mas a própria condição de existência à mulher: "Se o interesse dele premia outra, isto indica que, para ele, eu não sou, não existo. E, se não sou para ele, fica em questão minha existência como um todo".

Não! Você não existe apenas se e quando é vista, respeitada e escolhida por um homem. Você é - e isso não depende do olhar ou do julgamento de seu parceiro. Observe o caráter divino e a carga de expectativas que deposita sobre o homem que está ao seu lado, movida por esperanças, porém inconsciente de que, sendo um mero ser humano, ele não dá conta de fazer jus a tão grandiosa outorga. Se a merecesse, dificilmente a trairia.

É até possível que um comportamento sistemático de traição seja um dos sintomas de que algo não vai bem na união. Mas, se fosse esse o caso, o manejo do conflito deveria ser conduzido no interior da relação, não fora dela. O prazer do traidor é exercido no parque de diversões do caso extraconjugal, mas o que para ele talvez seja festa, alívio, compensação, para ela resulta em profundo ataque, a mais calhorda, a mais covarde forma de agressão.


Alberto Lima, psicoterapeuta de orientação junguiana, é professor-doutor em Psicologia Clínica e autor de O Pai e a Psique



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